domingo, 18 de setembro de 2022

Escutatória


Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi

anunciado curso de escutatória.

Todo mundo quer aprender a falar... Ninguém quer aprender a

ouvir.

Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que

ninguém vai se matricular. Escutar é complicado e sutil.

Diz Alberto Caeiro que... Não é bastante não ser cego para ver

as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma.

Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são

as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.

Parafraseio o Alberto Caeiro: Não é bastante ter ouvidos para ouvir

o que é dito.

É preciso também que haja silêncio dentro da alma. Daí a

dificuldade: A gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo

dar um palpite melhor... Sem misturar o que ele diz com aquilo que

a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de

descansada consideração... E precisasse ser complementado por

aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante

e sutil de nossa arrogância e vaidade. No fundo, somos os mais

bonitos...

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os

Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de

sua experiência com os índios: Reunidos os participantes, ninguém

fala.

Há um longo, longo silêncio.

Vejam a semelhança...

Os pianistas, por exemplo, antes de iniciar o concerto, diante

do piano, ficam assentados em silêncio... Abrindo vazios de

silêncio... Expulsando todas as idéias estranhas.

Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de

repente, alguém fala.

Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.

Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o

outro falou os seus pensamentos...

Pensamentos que ele julgava essenciais.

São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o

outro falou.

Se eu falar logo a seguir... São duas as possibilidades.


Primeira: Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade,

não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas

coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo

como se você não tivesse falado.

Segunda: Ouvi o que você falou. Mas, isso que você falou

como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para

mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.

Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é

pior que uma bofetada.

O longo silêncio quer dizer: Estou ponderando cuidadosamente

tudo aquilo que você falou.

E, assim vai a reunião.

Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro.

Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a

gente começa a ouvir coisas que não ouvia.

A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral

submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica

fechada. Somos todos olhos e ouvidos.

Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia,

ouvimos a melodia que não havia... Que de tão linda nos faz chorar.


Esse texto faz parte do livro de crônicas:

Rubem Alves. O amor que acende a lua.


Proposta:  POSTURA TERAPÊUTICA

Material disponibilizado pela Professora: Karen Saviotti



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